Vera Lúcia Dias (Clipp)
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Hiroshima, meu amor (Alain Resnais, 1959) – IMDb
No último capítulo do Seminário 10 – A angústia[1], Lacan retoma a questão do luto a partir da relação do sujeito com o objeto. Ele usa uma breve referência ao filme Hiroshima, meu amor[2], de modo a introduzir um comentário, paradoxal, sobre a substituição do objeto amado:
Como me dizia um de nós, humorista, a propósito da aventura que nos é descrita no filme Hiroshima, meu amor, essa é uma história perfeita para nos mostrar que qualquer alemão insubstituível pode encontrar de imediato um substituto perfeitamente válido no primeiro japonês encontrado numa esquina de rua. (Lacan, 2005, p. 363-364).
Nesse comentário, fica evidente a contradição entre o “insubstituível” e o “substituto perfeitamente válido”. Subjacente a essa formulação reside uma consequência clínica fundamental: se um parceiro amoroso aparentemente insubstituível pode ser substituído por outro, como situar a perda e o que exatamente se perde quando se perde aquele que se amava?
Em Hiroshima, meu amor, uma atriz francesa encontra-se em Hiroshima com um arquiteto japonês. Esse encontro amoroso é atravessado pela lembrança que ela guarda de um soldado alemão com quem viveu uma relação amorosa durante a guerra, e que foi morto tragicamente. O homem japonês que surge no presente dessa mulher, ainda marcada pela perda, pode tornar-se um novo parceiro, mas isso não significa que ele simplesmente substitua o homem da relação anterior, o alemão.
É justamente essa a diferença que Lacan procura estabelecer. O parceiro amado, tomado em sua imagem e nos traços que o tornam reconhecível e desejável, pode ocupar o lugar do objeto perdido, em sua dimensão imaginária, contudo, o objeto a não se confunde com essa imagem. Ele diz respeito àquilo que funciona como causa do desejo e que permanece mascarado, uma vez que não se reduz ao objeto, isto é, à pessoa que o encarna.
Momentos antes da referência ao filme, Lacan retoma a concepção freudiana do luto como um trabalho que exige do sujeito a consumação, via rememoração, da relação com o objeto perdido: “consumar pela segunda vez a perda do objeto amado, provocada pelo acidente do destino”[3]. Os detalhes dessa relação tornam-se fundamentais, pois o luto consiste em operar sobre os vínculos que permanecem ligados a esse objeto – não se trata de esquecer a pessoa ou o objeto perdido.
A partir disso, Lacan acrescenta uma distinção entre a imagem do objeto e o objeto a. Nesse sentido, o luto envolve os vínculos pelos quais o desejo se prende à imagem idealizada e seu trabalho [o trabalho do luto] permite restabelecer a ligação com o objeto a – o verdadeiro objeto da relação.
Essa distinção recoloca a questão da substituição. O “alemão insubstituível” encontra um substituto, não porque a pessoa perdida seja apagada, mas porque aquilo que causa o desejo não se reduz ao indivíduo que, contingencialmente, o encarnava. O substituto não ocupa apenas o lugar vazio; há uma operação sobre o próprio estatuto da perda.
É por isso que o filme se torna, para Lacan, uma referência precisa. O japonês não é o substituto do alemão por uma equivalência entre duas pessoas, mas porque a função que causa o desejo não está, em definitivo, ligada àquele que a encarnou. A contingência do encontro ganha, portanto, um valor crucial. O “japonês da esquina” surge, porque o desejo não está condenado a permanecer fixado à imagem do objeto perdido.
O luto não se conclui pelo esquecimento, nem pela mera troca de parceiros, mas por uma operação que permite ao sujeito sustentar a perda, sem permanecer capturado pela imagem daquele que se foi. A substituição torna-se possível quando o objeto perdido deixa de ser confundido com a causa do desejo.
A questão clínica que surge diz respeito àquilo que precisa ser perdido, para que um novo encontro seja possível. O trabalho de luto permite ao sujeito passar da fixação à imagem de um objeto, à possibilidade de reencontrar, na contingência de uma nova relação, aquilo que causa seu desejo. O “japonês da esquina” revela, afinal, que por trás do objeto que parecia ser insubstituível, havia algo que não coincidia com sua imagem, ou seja, o objeto a.
