COORDENAÇÃO:
Maria Bernadette Soares de Sant’Ana Pitteri (EBP/AMP/Clipp)
m_bernadettep@yahoo.com.br

CO-COORDENAÇÃO:

Cláudio Ivan Bezerra, Daniel Gomes Batelli, Erinson Cardoso Otenio e Fernando Andrade

Conheça a OFICINA DE LÓGICA E TOPOLOGIA

A Oficina de Lógica e Topologia da CLIPP foi idealizada para acompanhar os desenvolvimentos lógico-topológicos que exploram a equivalência entre propriedades estruturais de sistemas formais e modelagens geométricas; em funcionamento desde o segundo semestre de 2024, a Oficina objetiva aprofundar o estudo de tais vertentes propostas por Lacan, no intuito de propiciar uma reflexão psicanalítica e filosófica, a partir da leitura aprofundada dos textos lacanianos.

Tais leituras devem ocorrer, e ocorrem, sob a forma de “disciplina do comentário” – prática metódica de leitura focada em extrair a lógica interna de um texto, para além do sentido de superfície.

O ato de comentar textos enquanto prática formal e acadêmica remonta à antiguidade clássica e ao período medieval: este foi o método rigoroso que Jacques Lacan utilizou em sua leitura dos textos freudianos. Este método também foi incentivado por ele como técnica de leitura, no dissecamento de um texto, passando ao largo da crítica literária ou da exegese histórica, objetivando extrair a lógica subjacente aos conceitos.

Em Função e Campo da Fala e da Linguagem [1], Lacan estabelece as bases de uma leitura de Freud, criticando no mesmo movimento os analistas, seus contemporâneos, por abandonarem os textos originais do criador da psicanálise, defendendo que, a formação do analista (continuada), exige uma técnica exegética estrita da palavra.

Na abertura do Seminário, livro I – Os Escritos Técnicos de Freud[2], ele afirma que, comentar um texto exige respeito à estrutura conceitual do mesmo, para além de preconceitos contemporâneos.

Miller, no curso de Orientação Lacaniana – Coisas de Fineza em Psicanálise – lições 11 e 12 – usou o termo “disciplina do comentário”, na estruturação de um modelo de investigação teórica e clínica, considerando a mesma similar à tradição acadêmica da “disputatio”, método escolástico formal usado nas universidades medievais.

A Oficina de Lógica, no primeiro semestre de 2026, dedicou-se ao estudo de O Aturdito[3], produzido por Lacan entre os seminários 19 e 20, momento de virada de seu ensino. Este é um dos textos mais enigmáticos de Lacan que, se tomados na via de uma leitura ligeira, esbarra num impossível. Os participantes da coordenação da oficina dedicaram-se à desmontagem e remontagem de peças do texto, a partir da experiência singular de cada um.

Trata-se de levar em conta que, para aprofundar o estudo dos textos lacanianos, torna-se necessário abrir mão do sentido, silenciar as próprias crenças, valores e conhecimentos prévios, evitando a qualquer custo distorcer o escrito, ou seja, trata-se de despojar-se do imaginário, tentação sempre à espreita do ser falante. Isto significa deixar-se levar pelas consequências epistêmicas, atentar ao que surge de uma enunciação, entre o dito e o dizer.

O exercício lógico a que se propôs cada um dos participantes da Oficina exige, pois, o constante despojar-se de “entulhos” conceituais ao trabalhar com matemas, letra, lógica, topologia, na tentativa de alcançar pelo menos “um naco de real”.

 


[1] LACAN, J. “Função e Campo da Fala e da linguagem em psicanálise”. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.
[2] LACAN, J. O Seminário – Livro 1: Os Escritos Técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1986.
[3] LACAN, J. “O Aturdito”. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.