Márcia A. Barbeito (Clipp)
marciabarbeito@gmail.com

 

Janela Indiscreta (Alfred Hitchcock, 1954) – IMDb

 

O olhar é o personagem principal do filme: Jeffries, com a perna quebrada, em repouso por cinco semanas, está impossibilitado de sair do apartamento. Ele começa a se interessar pela vida de seus vizinhos, que vê através de sua janela.

Essa janela, se está um pouco escuro… é a partir de então um olhar. A partir do momento em que existe esse olhar, já sou algo distinto em tanto eu mesmo me sinto tornar objeto para o olhar do outro[1]

Jeffries é um fotógrafo premiado. A sua vida torna-se maçante e o que ele vê através da janela é mais interessante do que sua atual situação. Ele olha, tira conclusões sobre o que está ocorrendo – não somente olha, também é olhado – o que influencia a vida daqueles a quem bisbilhota.

Na relação escópica, o objeto de que depende a fantasia à qual o sujeito está apenso, numa vacilação essencial, é o olhar. Seu privilégio – e também o porquê de o sujeito durante tanto tempo ter podido desconhecer-se como estando nessa dependência – se atém à sua estrutura mesma[2]

Na cena em que seu amigo, o investigador, primeiro escuta a namorada cantarolar na cozinha e percebe a sua sombra e depois, ao vislumbrar a mala aberta onde aparecem a camisola e chinelos, o olhar passa a ser de curiosidade e desejo: nesse momento Jeffries o olha, o que barra qualquer comentário que o amigo queira fazer.

Não será justamente porque o desejo se instaura aqui no domínio da voyura que podemos escamoteá-lo?” / “Não podemos percebê-lo, esse privilégio do olhar na função do desejo, deixando-nos correr, se assim posso dizer, ao longo das veias por onde o domínio  da visão foi integrado ao campo do desejo[3].

Para Lacan,  o ser do sujeito é constituído no gozo proibido e impossível, que se transforma em promessa, demonstrando que castração é aquela que exclui o objeto a do corpo.

Durante todo o filme, os espectadores somos convocados a olhar, somos colocados dentro das cenas e observamos o que se passa, ocupando o lugar de voyer. O que se passa nas janelas são fragmentos que Jeffries vê entre seus cochilos, colocando em dúvida, em alguns momentos, se enxerga o que vê, ou se sonha com o que acontece a seus vizinhos.

Quando Thorwald sai com uma mulher do apartamento dele e Jeffries perde este momento por estar dormindo, isto não o faz desistir da hipótese de que este é um assassino.

Um ponto significativo é quando Thorwald olha para Jeffries e entende que foi observado durante toda a preparação para o crime, preparação que precisava da invenção de que sua mulher havia viajado. Foi apanhado pelo olhar do outro que observa e que, neste momento, também é observado.

A presença em cena de relógios traz o tempo; mesmo a presença (rápida) de Hitchcock dando corda no relógio sobre a lareira do músico, remete a questão

O conceito é o tempo da coisa. Hegel diz … o conceito não é a coisa no que ela é, pela simples razão de que o conceito está sempre onde a coisa não está, ele chega para substituir a coisa [4]

Podemos dizer que o diretor mobilizou a pulsão escópica da audiência, com seus movimentos, induzindo-nos a olhar o Olhar que se instaura com o olhar do outro, fazendo borda a um gozo que se constitui.

Quando Jeffries é abordado em seu apartamento por Thorwald, ele usa a luz do flash para cegar o invasor, conseguindo tempo para ser salvo, mas não o suficiente para escapar das consequências de tal ato. Na última cena aparece Jeffries sentado com um olhar de quem gozou de toda a situação … e  vê as duas pernas, agora, engessadas.

Poderíamos também colocar aqui uma outra questão: a do sonho, pois não podemos afirmar que ele viu o que viu e foi visto, ou e se tudo não passou de um sonho de uma noite de verão?

Podemos considerar que, se o sonho supre um déficit de interpretação é porque o próprio sintoma resiste ao sentido, assim como ao Witz, ele já não surpreende. O sujeito está tão identificado com ele que torna-se um lugar de identidade subjetiva e não como o inconsciente, um lugar de indeterminação. É como se o inconsciente se refugiasse nos sonhos depois que o sintoma esgotou os recursos da interpretação. Mas o real do sintoma não é o real do sonho: o umbigo, o desconhecido do qual ele dá testemunho, fornece então o álibi para continuar a desconhecer a estrutura de seu sintoma e concluir a análise sobre um vazio[5]

 


[1] LACAN, J. O seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud, (1953 – 1954), Rio de Janeiro: Zahar, 2009 págs. 313 e 314.
[2] LACAN, J. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, Rio de Janeiro: Jorge Zahar.1973/1985a,  p.83.
[3]  LACAN, J. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 1973/1985a,  p.84.
[4] LACAN, J. O seminário, livro 1: Os  escritos técnicos de Freud. (1953 – 1954). 2a ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2009. p. 314.
[5] Alocução proferida numa mesa sobre o passe em 18 de janeiro de 2009, na École de la Cause Freudienne, Paris. Texto incluído na revista Lettre Mensuelle, pgs 13 a 16.