Eliane Costa Dias (EBP/AMP/Clipp)
eliane4041@gmail.com

Niraldo de Oliveira Santos (EBP/AMP/Clipp)
niraldosp@uol.com.br

Conheça o Núcleo de Pesquisa A POLÍTICA DO SINTOMA

“Nada de harmonia do ser no mundo… se ele fala”[1].

A política do sintoma parte de uma constatação que atravessa toda a experiência analítica: o sintoma não é apenas um fenômeno a ser eliminado, mas um modo singular de satisfação e uma via de acesso ao inconsciente. Freud já havia demonstrado, nas Conferências 17 e 23, que o sintoma possui um sentido articulado às experiências inconscientes do sujeito e, ao mesmo tempo, constitui uma modalidade de satisfação da libido. É precisamente essa tensão entre sentido e gozo que Lacan levará às suas últimas consequências.

Se, para Freud, a interpretação permite reencontrar as cenas infantis e os pontos de fixação da libido, Lacan desloca progressivamente o eixo da questão. O sintoma deixa de ser apenas uma formação carregada de sentido para revelar sua dimensão real, aquilo que resiste à significação. Como afirma em A terceira, “o sentido do sintoma é o real”[2]. O sintoma conserva um invólucro formal, uma roupagem própria de cada época, mas seu núcleo permanece irredutível, ligado ao modo singular de gozo de cada falasser.

É por isso que todo sintoma também pertence ao seu tempo: Jacques-Alain Miller observa que a própria cultura fabrica sintomas, oferecendo-os como produtos prontos para consumo: “a cultura mesma propõe sintomas, ready made sintomas”[3]. O sujeito contemporâneo chega ao consultório atravessado pelos discursos dominantes da ciência e do capitalismo, carregando significantes como burnout, pânico, abuso, gênero ou assédio, nomes organizam formas de sofrimento, mas também revelam o modo como o discurso social captura o sujeito. Sob a promessa de felicidade ilimitada e de satisfação imediata, multiplicam-se os imperativos de desempenho, consumo e gozo, ao mesmo tempo em que se intensificam os processos de segregação, de exclusão e de errância subjetiva.

Entretanto, a psicanálise não reduz o sintoma ao seu contexto histórico. Mesmo quando sua forma é determinada pelos significantes de uma época, ele permanece a marca singular do encontro traumático entre lalíngua e o corpo. No último ensino de Lacan, o sintoma torna-se sinthoma: não mais apenas mensagem a ser decifrada, mas um modo de enodamento entre o simbólico, o imaginário e o real, uma invenção que permite ao sujeito sustentar sua existência. Em vez de buscar sua supressão, a análise visa tornar possível uma nova relação com esse modo de gozo.

É nesse ponto que a noção de política do sintoma ganha sua força. Em Lituraterra, Lacan escreve que “o fato de o sintoma instituir a ordem pela qual se comprova nossa política implica (…) que tudo o que se articula dessa ordem seja passível de interpretação”[4]. A articulação entre sintoma, interpretação, inconsciente e política torna-se inevitável. Quando Lacan afirma que “o inconsciente é a política”, desloca completamente a perspectiva freudiana fundada na referência ao pai. O inconsciente passa a ser pensado como uma realidade transindividual, inseparável das formas de laço social e das transformações da civilização.

A política da psicanálise, porém, não consiste em restaurar antigas figuras de autoridade nem em responder nostalgicamente ao declínio do Nome-do-Pai. Ela aposta na lógica do não-todo, preservando o lugar do real em uma época que tende a reduzir o sofrimento às classificações diagnósticas ou às soluções oferecidas pelo mercado. Trata-se de sustentar aquilo que escapa à universalização, fazendo existir a singularidade de cada sujeito diante dos imperativos contemporâneos.

Essa política opera em duas direções. No interior da própria psicanálise, ela encontra sua expressão maior no dispositivo do passe, onde se verifica a transformação produzida pela interpretação e a possibilidade de um novo enodamento do sintoma. Trata-se de uma passagem de um regime de sofrimento para um outro modo de relação com o gozo.

Voltada para a cidade, a política do sintoma permite ler, em cada sintoma singular, algo da estrutura do mundo contemporâneo, sem jamais dissolver o sujeito nas categorias do social. Como lembra Miquel Bassols, quando Lacan fala de uma política do sintoma, não se trata de fazer desaparecer o sintoma, “mas sim do sintoma como portador de uma verdade do sujeito do nosso tempo, do seu mais-de-gozar”[5]. O sintoma torna-se, assim, um ponto de leitura privilegiado tanto da subjetividade quanto da civilização.

É nessa direção que o ato analítico adquire sua dimensão política. Longe de adaptar o sujeito às exigências do mundo ou de responder aos ideais de normalização, ele cria as condições para que cada um invente uma solução singular diante do impossível que o constitui. Em uma época marcada pela universalização do consumo e pela proliferação dos imperativos de gozo, talvez seja precisamente essa aposta na singularidade — naquilo que não se deixa totalizar —, a contribuição mais decisiva da psicanálise para a política. Como sugere Lacan no Prefácio à edição inglesa do Seminário 11, não há um “todos” quando se trata do passe, “mas esparsos disparatados”[6]. É justamente nessa recusa da homogeneização que a política do sintoma encontra sua força e sua atualidade.

Neste ano de 2026, iniciamos as investigações em torno do tema “A política do sintoma – O sintoma e o nosso tempo”, com a leitura minuciosa do texto “Televisão” (1974)[7], de Jacques Lacan.

Nossa proposta é a de verificar como a clínica psicanalítica serve de lugar privilegiado para receber e tratar, pela via do sintoma, o que do mal-estar na contemporaneidade se articula aos modos de gozo que aprisionam os seres falantes.

 


[1] MILLER, J-A. “Marginálias em Televisão”. In: LACAN, J. Televisão. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 522.
[2] LACAN, J. “A terceira”. In: Opção Lacaniana – Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, nº 61, dezembro de 2011, p. 18.
[3] MILLER, J-A. “O sintoma como aparelho”. In: O sintoma charlatão. Fundação do Campo Freudiano. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 17.
[4] LACAN, J. “Lituraterra”. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 23.
[5] BASSOLS, M. “Política do sintoma e extravio do gozo”. Carta de São Paulo – Revista da Escola Brasileira de Psicanálise, São Paulo. Ano 28, nº 1, abril de 2021, p. 344.
[6] LACAN, J. “Prefácio à edição inglesa do Seminário 11”. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 569.
[7] LACAN, J. “Televisão”. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2023, p. 508-543.