Márcia Barbeito (Clipp)
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Maria Bernadette Soares de Sant’Ana Pitteri (EBP/AMP/Clipp)
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A psicanálise de orientação lacaniana e a filosofia mantêm uma relação profunda e complexa. Jacques Lacan, psiquiatra e psicanalista, mas não filósofo, subverteu conceitos filosóficos com interpretações tradicionais, na busca de estruturar a teoria psicanalítica, este saber que surgiu no final do século XIX em resposta às demandas carreadas pelo sofrimento psíquico.
Lacan usa a filosofia, ou melhor, as teorias de diferentes filósofos de modo bastante próprio, nas tentativas para teorizar a psicanálise – afinal uma filosofia é a multiplicidade de leituras que a mesma permite.
Entre discursos diferentes arrisca-se o equívoco; o diálogo entre filósofos e psicanalistas pode transformar-se em um diálogo de surdos, em que cada um toma do discurso do outro apenas o que lhe interessa, o que não é necessariamente o que interessa ao discurso do outro.
Entre ambas as linguagens temos um grande escolho, um grande obstáculo; o maior deles seria o de nada guardar ao atingir o outro discurso partindo do que se abandonou, isto é, ao caminhar da psicanálise em direção à filosofia, nada guardar da psicanálise e vice-versa. Nesse “vai-e-vem” haveria um vazio que separa os dois discursos, e talvez não seja cabível estabelecer pontes que permitam a travessia numa ou noutra direção. Trata-se de uma tarefa deveras árdua e talvez um diálogo seja mesmo da ordem do impossível, o que não impede tentativas.
O risco, na visão dos pensadores, seria tratar questões fora do universo próprio da filosofia e, portanto, com pouco rigor e certo anacronismo[1], por outro lado, os psicanalistas podem considerar que a abstração característica da filosofia a nada corresponde a uma prática efetiva, à pratica clínica.
Insistir, preliminarmente, nas diferenças entre ambos os discursos remete a algo como uma tensão entre estes, que é originária. A psicanálise, no momento mesmo em que se constituiu, constituiu-se, de algum modo, contra a filosofia.
A psicanálise nasce contra a filosofia, em especial na medida em que a filosofia, tradicionalmente, está associada à ideia de que a vida psíquica é consciente. No entanto, a relação de Freud com a filosofia[2] não é apenas de polêmica e hostilidade; existe alguma ambivalência que se exprime, por exemplo, no que ele diz numa carta a Fliess:
Observo que, pela via tortuosa da clínica médica, você está alcançando seu ideal primeiro de compreender os seres humanos enquanto fisiologista, da mesma forma que alimento secretamente a esperança de chegar, por essa mesma trilha, à minha meta inicial da filosofia. Pois era isso que eu queria originalmente, quando ainda não me era clara a razão de eu estar no mundo[3].
E posteriormente, em 1914, ele diz em A História do Movimento Psicanalítico:
… neguei a mim mesmo o enorme prazer da leitura das obras de Nietzsche, com o propósito deliberado de não prejudicar, com qualquer espécie de idéias antecipatórias, a elaboração das impressões recebidas na psicanálise. Tive, portanto, de me preparar – e com satisfação – para renunciar a qualquer pretensão de prioridade nos muitos casos em que a investigação psicanalítica laboriosa pode apenas confirmar as verdades que o filósofo reconheceu por intuição[4].
Freud declaradamente reprime o interesse pela filosofia, para fazer aquilo a que se propôs, ou seja, a criação da psicanálise. De um lado rejeição e de outro o interesse profundo que se manifesta com citações, num e noutro texto de diferentes filósofos.
Os esforços teóricos de Freud em relação à psicanálise, apresentam-se sempre como uma espécie de solução provisória, indispensável na ausência de teorias médicas ou filosóficas que pudessem amparar as descobertas clínicas: ele afirma que, se a clínica contradiz a teoria, abandona-se a teoria. Exemplar são as notas (a partir da tradução) realizada por Osmyr Faria Gabbi Jr., do Projeto de uma Psicologia de Freud, de 1895[5].
A psicanálise nasce contra a filosofia, mas a relação de Freud com a filosofia não é a mesma sustentada por Lacan. Se para Freud trata-se de recusa e desejo, no caso de Lacan[6] talvez se possa falar em certa fascinação, que se exprime de maneira um tanto quanto complicada, face às interpretações próprias dos diferentes filósofos por ele abordados.
No estudo da teoria lacaniana, talvez uma das tarefas mais urgentes para a sua intelecção, seria a periodização de sua produção teórica; talvez um modo de fazer essa periodização, essa pontuação do desenvolvimento teórico, seria examinar a evolução da obra de Lacan à luz das várias tentativas de diálogo com a filosofia. Vemos Miller (até por ser filósofo) seguir essa trilha em vários momentos de seus seminários de “Orientação Lacaniana”.
Ao final dos Escritos, no índice dos nomes citados, temos cerca de cinquenta filósofos pensados e criticados por Lacan, com preeminência de Aristóteles, Descartes, Hegel, Heidegger, Kant, Kierkegaard, La Rochefoucauld, Platão, Marx, Sartre, Sócrates, Espinosa – isso nos Escritos, sem mencionar os Seminários. Não esquecer que Lacan desenvolve sua teoria diante de uma assistência, não apenas de psicanalistas, mas de jovens da Escola Normal Superior de Filosofia (Miller entre eles), com os quais a teoria lacaniana e a filosofia encontraram uma forma de articulação.
Na lição de 17/3/1965 do Seminário livro 12 – Problemas Cruciais para a Psicanálise[7], logo depois de retomar a questão da transferência que gira em torno de Alcibíades e Sócrates no Banquete[8] de Platão, Lacan vai dizer que:
Essas coisas são construídas em torno da experiência analítica e, da experiência analítica, não é o menos precioso saber como o analista a pensa, que ele queira ou que não queira fazê-lo em termos de pensamento. / Que ele se exprima, “eu não sou daqueles que filosofam” não muda em nada a questão; quanto menos se quer fazer filosofia, mais se faz (grifo nosso).
A questão é candente, caminhamos cuidadosamente sobre brasas; filosofia e psicanálise constituem discursos diferentes – para Lacan filosofia é o discurso do mestre, o discurso do inconsciente, o avesso da psicanálise, ou melhor:
O discurso do mestre não é o avesso da psicanálise, é o lugar em que se demonstra a torção própria, eu diria, do discurso da psicanálise. / … a possibilidade de uma inscrição dupla, sem que seja preciso transpor uma borda. / É a estrutura, há muito tempo conhecida, da chamada banda de Moebius[9].
E ele ainda afirma que “O discurso do mestre tem apenas um contraponto, o discurso analítico”[10]. Se o inconsciente, discurso do mestre mas também da filosofia, tem uma linguagem da qual o contraponto é o discurso do analista, o recurso que temos ao abordar filosofia e psicanálise será passear pelo espaço topológico da Banda de Möbius ou fita de Möbius[11] que, por possuir apenas um lado e uma única borda, permite que se percorra ambos os discursos, seguindo a orientação de Lacan, dada no início do Seminário 18 – De um discurso que não fosse semblante[12].
