Rosângela Carboni Castro Turim (Clipp)
rccastroturim@gmail.com
Muito obrigada, Márcia Rosa – em nome da Coordenação do Curso de Psicanálise deste semestre, que compartilho com Niraldo de Oliveira Santos e Débora Garcia – pela sua presença e pela conferência de hoje.
Gostaria também de agradecer à Diretoria: Daniela Affonso (Diretora Geral), Perpétua Medrado (Diretora de Ensino e Pesquisa), João Paulo Desconci (Diretor de Publicações) e Melissa Ágda da Silva (Diretora Secretária Tesoureira), pelo convite para tecer alguns comentários nesta Atividade de Abertura do segundo semestre de 2026.
O título de seu livro[1] Por onde andam as histéricas de outrora?, foi extraído da questão formulada por Lacan na conferência de Bruxelas[2], que você a contextualiza e norteia sua pesquisa. O subtítulo – um estudo lacaniano sobre as histerias, “histerias” no plural e não no singular como Freud o fez. Você pluraliza as histerias apontando os desdobramentos e as múltiplas respostas ao longo da sua tese: as pequenas e grandes histerias, a histeria rígida e a perfeita, historisterização e histeria sinthomatica.
Achei original a resposta literal a esta questão, relatando o tratamento de algumas histéricas de Freud e os efeitos do encontro com a psicanálise: Berta Pappenheim (Anna O.) posteriormente se dedicou à escrita de contos de fada e causas sociais; Fanny Moser (Emmy von N.) e Ida Bauer (Dora, que morreu aos 63 anos em Nova Iorque); Sidonie, a jovem homossexual (Margareth Czonka) tornou-se retratista e depois de duas outras tentativas de suicídio, viveu até 99 anos … outras curiosidades: leiam o livro…
As grandes histerias foram relocalizadas no campo da psicose; tanto Anna O. como Emmy von N. (dois casos clássicos de Freud) foram revisitados por psiquiatras e psicanalistas que questionam o diagnóstico.
Fazendo um link com o último semestre no qual trabalhamos o Homem dos Lobos, retomo Miller em Efeito de retorno à psicose ordinária[3] quando este aponta uma das consequências teóricas da psicose ordinária: a afinação do conceito de neurose. Para ele, trata-se de uma psicose ordinária quando não se tem a assinatura da neurose, a estabilidade, a constância, a repetição.
Sua leitura de Maleval – Loucuras histéricas e psicoses dissociativas[4], e Roberto Mazzuca aponta para elementos que orientam quanto ao diagnóstico diferencial e ao modo de desencadeamento. Diferente da psicose, na loucura histérica o desencadeamento ocorreria quando condições erógenas mobilizam a culpabilidade inconsciente, dividindo o sujeito e gerando um campo sintomático, além de um segundo elemento quanto à modalidade do delírio.
Sobre a questão do diagnóstico diferencial, no seu livro você cita alguns psicanalistas que sustentaram, no caso Emmy e Anna O, tratar-se de esquizofrenia e não de histeria.
No tocante às pequenas histerias como em Dora, a histérica contemporânea não precisa necessariamente passar pelo homem; temos que Lacan o localiza na posição de “testa de ferro” interrogando a posição feminina, tal como o fez Dora. Ela se faz de homem e aborda a Outra mulher, suposta saber os mistérios da feminilidade, o que origina a ideia de uma nova virilidade – a de uma mulher! Sem fazer da homossexualidade uma identificação, você acrescenta que a escolha homossexual guarda, em muitos casos, traços de uma idealização da feminilidade, um fascínio pelo modo enigmático com o qual o feminino se encarna em uma Outra, e que ela não reconhece em si própria – isso marca uma diferença com a jovem homossexual.
Considerando a pergunta da histérica: sou homem ou sou mulher?, como formular a histeria no horizonte contemporâneo, no qual a diferença sexual parece não impactar e nem ser uma questão, principalmente na clínica com adolescentes.
Se a histeria e os sintomas histéricos variam de acordo com a cultura, com a moda e, em especial, com a presença da psiquiatria e da psicanálise no horizonte de cada época, isso ocorre porque a histérica não vai sem o seu Outro, seja esse Outro o psiquiatra, o psicanalista, o mestre, o pai etc. Portanto, as várias formas que esse Outro (até mesmo o discurso ou movimento feminista) toma, não são sem implicações e consequências, na forma como a histeria se apresenta.
Freud demonstrou os poderes da palavra a partir da tese formulada com Breuer há mais de um século: “as histéricas sofrem de reminiscências”. Lacan avança, do primeiro ao segundo ensino nos anos 70, o ponto em que a histeria demonstra como o corpo, tocado pelo significante, faz ressonâncias no campo do gozo.
Desde Freud muita coisa mudou, atualmente nos deparamos com novas formas de laço social, novas configurações familiares, novas relações com o corpo, com a sexualidade e o prazer. Os consultórios continuam recebendo sujeitos que ainda trazem como queixa insatisfações em relação ao corpo, ao amor e ao desejo; um “não saber fazer” com o gozo que habita o corpo e com a alteridade.
Você resgatou um importante termo lacaniano que pode orientar desde as entrevistas preliminares: historisterização – junção de histeria e historicização[5]: “historisterizar-se de si mesmo, ir mais além dos assuntos de família e testemunhar sobre o modo como o significante ressoou no seu corpo, abrindo aí trilhos de gozo”[6].
No horizonte da época, a histeria sinthomatica seria uma das possíveis formas de amarração borromeana? Possibilidades de amarração que sustentam o sujeito: histeria sinthomatica enquanto armadura do amor ao pai; histeria sinthomatica enquanto arranjo do sujeito com um Nome-do-pai; histeria sinthomatica enquanto acontecimento de corpo, traço residual inanalisável de um fim de análise
Foi um enorme prazer a leitura do seu livro e cito o último parágrafo do prefácio e apresentação de Fabián Fajnwaks:
Desperte, querido leitor! A psicanálise mudou de época junto com a histérica, e o formidável trabalho desta atenta psicanalista te permitirá atualizar-te, encontrando pistas para fazer entrar a prática freudiana na época na qual já não domina o significante, mas o gozo. Ela, a histérica, sabe isso porque o padece em seu corpo falante. E nos adverte: se tu não despertas, corres o risco de ver desaparecer esta pedra preciosa que Freud inventou sob o lodo da falsa ciência e da impostura. Se tu não despertas, terá contribuído para esse desaparecimento, neste caso, por omissão[7].
