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Atualidades Psicanalíticas #35

A existência da Mulher

Por Keren Ben-Hagai

“Wie es wird, wie sich das Weib.” [1]

Ao longo de seu ensino, Freud referiu-se à feminilidade como um enigma. Ele falou da sexualidade da mulher como um continente obscuro. E em sua carta a Maria Bonaparte, ele escreveu sua famosa declaração, “o que quer uma mulher?” [2]. Em muitos textos de seu ensino posterior, os esforços de Freud para compreender algo sobre esse assunto são evidentes.

Em sua conferência ‘Feminilidade’ [3], ele escreveu: “Corresponde à singularidade da psicanálise não querer descrever o que a mulher é, […] mas, sim, pesquisar como ela se torna mulher, como se desenvolve a partir da criança dotada de disposição bissexual”. Esta é uma declaração interessante que captura uma série de tópicos que Freud vinha perseguindo.

As respostas de Freud à questão da feminilidade são retiradas do mundo da anatomia. Em alguns de seus escritos, ele atribuiu a bissexualidade às mulheres [3, 4, 5]: “em alguns ciclos de vida isso chega a uma alternância repetida de épocas em que predominam ou a masculinidade ou a feminilidade” [3]. Ele foi mais preciso em seu artigo ‘Sobre a sexualidade feminina’ [4], em que comenta que a mulher tem duas zonas sexuais: o clitóris e a vagina. O clitóris é análogo ao órgão masculino, enquanto a vagina é o órgão feminino no sentido pleno da palavra. Portanto, disse ele, a vida sexual de uma mulher normalmente se divide em dois estágios. O primeiro tem caráter masculino, e apenas o segundo tem caráter feminino exclusivo. No entanto, apesar do significado que atribui à anatomia, ele na verdade, ao mesmo tempo, dá um peso considerável à noção de que a sexualidade feminina está ligada ao falo.

Além disso, Freud pensava que o caminho para o desenvolvimento da feminilidade é mais difícil do que aquele que o menino deve percorrer até atingir a maturidade sexual, pois envolve a realização de duas tarefas especiais [3,4]. Uma é a substituição, total ou parcial, da zona erógena, o clitóris (semelhante ao pênis do menino), pelo útero / vagina. A complexidade adicional é a substituição do objeto de amor, da mãe, como objeto primário, para o pai. Assim, é imposto à menina a substituição tanto da zona erógena quanto do objeto.

Então, como ela veio a existir?

Minha curiosidade me levou a ler o original alemão, onde encontrei a seguinte frase: “wie es wird, wie sich das Weib.” O uso dos termos “es wird” e “das Weib” não é comum na língua alemã e, portanto, mesmo para quem fala alemão, requer esforço para entender a intenção de Freud. As nuances da linguagem permitem dizer que o sentido desta frase vem de modo a posteriori. O que se entende em retrospecto é que a chamada “Coisa” (es) se refere à mulher (das Weib) no final da frase. Ou seja, uma coisa que se transforma em mulher. Assim, a tradução em inglês – comes to being [vem a ser] – enfatiza a dimensão do ser e perde o sentido que o original alemão usa – comes into existence [vem à existência].

No artigo de Miller, “Ex-sistência” [6], a existência aparece como absoluta, como externa ao ser, e ele propõe uma matriz externa à cadeia significante, a fim de indicar isso. Ele escreve: “O desvanecimento de um sentido produzido como o efeito do significante, eventualmente deixa ex-sistente um real que se sustenta por si”. Consequentemente, a existência é o que resta após a dissolução do sentido, após a dissolução do ser.

No Seminário XX, “Mais ainda” [7], Lacan afirma, “a todo ser falante, […] quer ele seja ou não provido dos atributos da masculinidade – atributos que restam a determinar – pode inscrever-se nesta parte” (a parte mulher). Essa afirmação aguça a posição do sujeito quanto ao gozo feminino e apura o caminho que ele havia percorrido, na análise, para delimitá-lo a seu modo particular. Não é por acaso que Lacan nos direciona à escrita para captar algo do real [8], aquilo que não pode ser simbolizado. O significante “inscrever” é utilizado por Lacan como signo de existência.

O binário “definição-existência” [describe-existence], como Freud o transmite, e o significante “inscrever”, como Lacan o usa, ambos enfatizam que uma mulher não pode ser definida por meio de nenhum esquema pré-determinado, nem definida como ser. Em vez disso, é que ela passa a existir [comes into existence] de uma forma contingente, e nas oscilações do tempo, nos momentos em que isso se torna possível. É quando ela é inscrita.

É impossível “descrever” uma mulher, mas apenas compreender as condições que podem permitir que ela seja inscrita. Esta inscrição pode estar relacionada a um uso do sinthoma, e também pode ter alguma relação com o homem. No Seminário XXIII, “O Sinthoma” [8], Lacan afirma que, “o homem é para uma mulher tudo o que quise­rem, a saber, uma aflição […]. Trata-se mesmo de uma devastação.” Nesse sentido, não poderíamos dizer que o homem pode funcionar como um sinthoma, ou seja, pode ser uma condição para a existência da mulher? Em alguns casos, pode ser que sua presença sustente a relação entre o sujeito e o real de seu próprio corpo.

 

Tradução: José Wilson Ramos Braga Jr.
Revisão: Leny M. Mrech

Referências
[1] Freud, S. (1933). XXXIII: Vorlesun Die Weiblichkeit. Gesammelte Werke: XV, 119-145.
[2] Ernest, J. (1953). The Life and Work of Sigmund Freud. Plunnket Late Press. 2014.
[3] Freud, S. (1933). Aula XXXIII: A feminilidade. In: Amor, sexualidade, feminilidade. 1ª edição – Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2019. (Obras Incompletas de Sigmund Freud; 7), pp. 318;337
[4] Freud, S. (1931). Sobre a sexualidade feminina. In: Amor, sexualidade, feminilidade. 1ª edição – Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2019. (Obras Incompletas de Sigmund Freud; 7), pág. 289
[5] Freud, S. (1937). Análise Terminável e Interminável. The International Journal of Psycho-Analysis, vol. XVIII, Parte 4.
[6] Miller, JA (2016). A ex-sistência. Opção Lacaniana, n. 33
[7] Lacan, J. (1972-1973). O Seminário, livro 20: mais, ainda – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985, pág. 107.
[8] Lacan, J. (1975-1976) O Seminário, livro 23: o sinthoma – Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 98

Texto republicado com permissão do autor. Publicado em inglês na Lacanian Review Online em 19/05/2021 no endereço eletrônico
https://www.thelacanianreviews.com/a-womans-existence/