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VERDADE? VERDADES!

Maria Bernadette Soares de Sant´Ana Pitteri (CLIPP/EBP/AMP)

 

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Verdade, assunto corriqueiro na Filosofia desde a Grécia Antiga, aparece nas disputas dos filósofos com retóricos e sofistas, seus principais adversários. Os retóricos, numa linha relativista, propunham-se a desenvolver a arte do “bem dizer” – a arte da retórica – ensinando aos alunos como discursar sobre o mesmo objeto, de forma positiva ou negativa, sempre de modo convincente. Os sofistas, professores itinerantes e altamente remunerados, propunham-se a desenvolver nos jovens a virtude política (arethé), baseada na premissa de Protágoras “o homem é a medida de todas as coisas, das que são como são, das que não são como não são”.

Para Bárbara Cassin [1]

“o sofista, mestre da sabedoria, não é filósofo, amante que não ousa pretender possuir todo o seu objeto: a sofística se constituiu e foi constituída em alter ego da filosofia”.

Ao relativismo sofístico e retórico, os filósofos opunham a verdade: verdade absoluta, quase num sentido místico em Platão, contemplada, mas impossível de ser colocada em palavras; verdade correspondência em Aristóteles – as coisas deviam corresponder às palavras (lógos) e estas ao pensamento.

Mas como definir a verdade, em época de pós-verdade que nega os fatos, em época de fake news que criam fatos? Nos tempos atuais não se vislumbra uma possibilidade de definição universal de verdade. Estamos vivendo uma nova era da Sofística? [2]

Este pensamento é sempre inquietante para um filósofo. Heidegger se pergunta se haveria uma essência da verdade, numa busca de universalidade característica à filosofia

“… e dirige seu olhar para aquilo que unicamente caracterizaria toda “verdade” enquanto tal [3]”.

Lacan, ao contrário dos filósofos, abordando a questão sob um ponto de vista singular, diz

“Sempre digo a verdade: não-toda, porque dizê-la toda não se consegue. Dizê-la toda é impossível, materialmente: faltam palavras. É por esse impossível, inclusive, que a verdade tem a ver com o real [4]”.

A verdade não é o real e o significante articulado apenas contorna o real, este sim, buscado pela verdade – e se a verdade é não-toda está condenada a mentir, é da ordem do simbólico, do impossível de tudo dizer.

Lacan, difícil? Não só nas elaborações sobre a verdade, mas na colocação mesma dos entraves ao entendimento da experiência psicanalítica – talvez seja este um modo de forçar as pessoas a desafiarem as dificuldades que os estudos da psicanálise fartamente oferecem, enfrentando a “divina preguiça”, como diz Miller.

O caminho para a epistemologia psicanalítica não é fácil, mas não chega a ser descartável a ideia, se pensarmos no muito de aventureiro que há no ser humano, de que Lacan e sua obra são um desafio para aquele que busca trilhá-lo. Ou será que as pessoas se deixam fascinar pela retórica lacaniana, pelas palavras, velhas e sempre eficientes armadilhas? Não é improvável, o homem aqui é presa fácil. Ou talvez seja uma não tão descabida hipótese: dificultando ao máximo ser entendido, Lacan abre uma via para que os humanos possam chegar, pelo menos um pouco mais próximos, ao novo saber que veio ao mundo com Freud.

Mas talvez, ao falar de “verdade”, se devesse antes questionar se as palavras e as coisas se recobrem, se elas se encaixam num ajuste perfeito, ou como pergunta Nietzsche

“… o que se passa com aquelas convenções da linguagem? (…) as designações e as coisas se recobrem? É a linguagem a expressão adequada de todas as realidades [5]?”.

Será correto dizer que, enquanto alguém fala, aquele que ouve compreende o que o falante pretende dizer? Mesmo que esta “atitude ingênua” não pareça mais estar sendo postulada, epistemologicamente falando, não deixa de ser interessante notar que ela continua sim a imperar, independente do que apontam os estudos sobre a função da fala e do campo da linguagem no ser humano, elaborada minuciosamente por Lacan. Apesar de tudo, a “atitude ingênua” comanda na direção contrária; caso isso fosse fato, a tradução de uma língua para outra seria perfeita, e mais, os programadores em computação não estariam se esfalfando na busca de algoritmos para substituir o tradutor, mesmo considerando que este é, como dizia Freud, “tradutore, tradittore”.

Para Nietzsche, as

“… diferentes línguas, colocadas lado a lado, mostram que nas palavras nunca importa a verdade, nunca uma expressão adequada: pois senão não haveria tantas línguas [6]”.

Partimos da hipótese de que estamos imersos num mundo de “coisas” das quais somos parte e, para sair desta condição, valemo-nos da linguagem. Usando as palavras na designação das “coisas”, o ser humano organiza seu mundo, tornando-se sujeito no momento mesmo em pratica esse ato, ato de fala. O mundo da linguagem tenta dar conta do mundo das “coisas” e, o sujeito-falante, ao se dirigir a um outro sujeito-falante, torna-o também “coisa”. Essa “coisa”, por ser falante, usa o mesmo artifício visando tornar-se sujeito. Pensemos, pois, que esse mundo de “coisas”, de “objetos”, organizado a partir de uma linguagem, torna irreversível entre falantes a dialética sujeito/objeto, fundada na e pela linguagem. Do caos, desordem original, é feita uma organização possível a partir da linguagem, por e para aqueles que vão servir-se dela.

Ao falar, já se interpreta uma realidade (no sentido freudiano) que seria caótica sem a linguagem. Se a palavra designando as “coisas” [7] é uma interpretação, pode-se dizer que tudo o que passa pela linguagem é interpretação? Nietzsche se pergunta se será

“… a linguagem expressão adequada de todas as realidades [8]”.

Na atitude ingênua referida acima, o homem parece acreditar que sim e, ao que parece, houve um esquecimento, em algum lugar ficou recalcado o que as palavras são: apenas representantes das “coisas” e não as “coisas” elas mesmas.

Afinal, o que é uma palavra? “A figuração de um estimulo nervoso em sons” [9], dirá Nietzsche, uma “inervação verbal” [10], dirá Freud. O que transformaria estímulos nervosos ou inervações verbais em palavras? Talvez um acordo, coletivo, primordial, mítico por suposto, necessário para uma possível comunicação – que Lacan afirma, com toda propriedade, que não existe – na busca de instaurar uma civilização.

A linguagem falada por todos traz uma nivelação, um igualamento, uma busca do entendimento mútuo que seria a grande pacificação – ilusão humana! O ser humano esquece que deve ter havido, nele mesmo, uma primeira função para os sons emitidos, mas a partir do momento em que apreende o código permitido pela cultura/civilização, passa a valorizar nestes sons apenas sua função social, sua tentativa de comunicar. A linguagem e as palavras teriam a função de tamponar um primeiro momento singular.

A palavra se torna conceito, ou seja

“… quando não deve servir como recordação para a vivência primitiva, completamente individualizada e única à qual deve seu surgimento …[11]”.

Conhecemos as coisas enquanto igualadas pelos conceitos, enquanto a

“… Natureza … conhece … somente um X, para nós inacessível e indefinível [12]”.

Por que inacessível e indefinível? Porque único, desigual e, portanto, incomunicável – não passa pela linguagem. Talvez estejamos mesmo condenados a saber apenas aquilo a que a linguagem, criação humana, permite acesso, como grande veladora deste X? Estamos condenados a viver às voltas desse X primordial, sem alcançá-lo? A vivência primitiva, no seu limite, poderá apenas ser contornada pela palavra, nunca correspondendo a ela. Lembrar a semelhança do X nietzschiano com a “lalangue” e com o real em Lacan, não parece ser um grande abuso, embora devamos marcar a diferença entre linguagem filosófica e psicanalítica.

Para Lacan, em seu último ensino, temos “lalangue”, palavra fora da significação, em oposição à linguagem estruturada que

“… só se sustenta do mal-entendido, que vive dele, que se nutre dele, porque os sentidos se cruzam e se multiplicam sobre os sons…[13]”.

O que seria a verdade dentro dessa linguagem pacificadora, que deve justamente fazer esquecer uma vivência primitiva? Nietzsche diz ser apenas

“Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas e que, após longo uso, parecem a um povo, sólidas, canônicas e obrigatórias; as verdades são ilusões das quais se esqueceram que o são …[14]”.

E caso o ser humano não queira

“… contentar-se com a verdade na forma de tautologia, isto é, com os estojos vazios, comprará eternamente ilusões por verdades [15]”.

Verdade seria apenas usar a linguagem como mandam as regras determinadas pela sociedade em que se vive ou a partir do “valor de verdade” da lógica – V e F? É como se, jogando um jogo qualquer, durante a partida os parceiros esquecessem que se trata de um jogo, apenas um jogo. No esquecimento deste “jogo da linguagem”, os homens acreditam ser verdade que a palavra corresponde à coisa. E chamam mentira aquilo que for dito ao contrário. E é no lugar do esquecimento que a noção verdade/mentira se impõe, passando a ser verdade o que a sociedade convencionou como denominação próprias às “coisas” e mentira o que contraria as regras do acordo social.

Mas aquele X “inacessível e indefinível”? Afinal, justamente por ser indefinível é que se pode dizer que é a marca do sujeito; não há palavra que o expresse num conceito que é instrumento nivelador, nunca singularizante. Mas por não haver palavra que expresse, não deixa de existir, ao contrário, fica o tempo todo pressionando, determinando as vivências humanas. Como a “lalangue” e o real de Lacan[16].

Parece não ser possível mesmo uma significação absoluta, do contrário as discussões intermináveis sobre interpretação, por exemplo, não ocorreriam. E parece que essa significação não acontece pelo fato de haver algo que não pode ser definido, ou não pode ser simbolizado, como diria Lacan.

Como então pretender fazer Psicanálise, a arte de interpretação por excelência? A interpretação psicanalítica se passa entre sujeitos que vivem, cada qual por seu lado, a dialética sujeito/objeto, mas na realidade, a linguagem entra como terceiro. E nessa dialética, ao se colocar como sujeito, o ser humano acaba sempre por fazer do outro, objeto. Pode um psicanalista interpretar um outro sem objetivação? Como é possível à Psicanálise permitir o surgimento do sujeito no outro?

A interpretação válida não seria aquela que tenta dar significação, mas aquela que possibilite o X (“lalangue” e real) aparecer de alguma forma, para permitir o brotar do sujeito. Um psicanalista não vai presentear seu paciente com uma subjetivação – isso é impossível; no máximo, ele o presentearia com a sua própria subjetivação. Ele pode apenas permitir que o sujeito se manifeste. Aqui cabe a noção lacaniana do objeto “a”, psicanalista enquanto objeto causa de desejo do sujeito.

Se a interpretação pode oferecer apenas a visão possível de um perfil, nunca puro, mas distorcido pela observação do sujeito que faz do outro seu objeto, a resposta sobre interpretação pode ser positiva, se este objeto for o analista. Os problemas aparecerão se as interpretações forem tomadas como “verdades” dos sujeitos que as fizeram, ou como a “verdade de cada um”. É preciso não esquecer que a “verdade de cada um” está fundamentalmente contaminada pela linguagem, única possibilidade que tem o ser humano de tentar comunicar o que acredita interpretar nos outros.

Lacan sugere que se alcance “a verdade”? Nenhuma pretensão! Se a verdade é não-toda, a mentira entra e a verdade se torna mentirosa. Lacan vai falar de varidade – verdade variável – no Seminário 24

“O que um enunciado tem a ver com uma proposição verdadeira? Seria preciso se esforçar, como enuncia Freud, para ver sobre o que está baseado esta alguma coisa que não funciona senão na usura, na qual está suposta a verdade. Seria preciso se abrir à dimensão da verdade como variável, o que chamarei a varidade, com o é de variedade engolido [17]”.

O sujeito que tenta interpretar tem, com sua própria linguagem, as mesmas dificuldades ou mais, talvez, do que terá com a linguagem do outro – é quando o analista se faz semblante de objeto.

A verdade em sua estrutura de ficção está inserida na linguagem comum, mas em algum momento esta estrutura, que cobriu a verdade e a absorveu, a faz prosperar nesta estrutura. Com a decadência da verdade, impõe-se recorrer ao real, que não tem estrutura de ficção, não é absorvido pelo simbólico. O privilégio da psicanálise lacaniana é a relação que sustenta com o real.

Como diz Miller

“que a verdade tem estrutura de ficção é algo completamente certo, mas de uns tempos para cá, a estrutura de ficção cobriu a verdade, a incluiu, a absorveu. Sem dúvida a verdade prospera nela, se multiplica, se pluraliza, mas está quase morta. Ante a decadência ficcional da verdade, impõe-se recorrer ao real como o que não tem estrutura de ficção[18]”.

Parece que se adiantando a um endurecimento, já sabendo que o mesmo aconteceria, Lacan tudo fez para dificultar o entendimento de sua obra, fugindo de uma inteligibilidade fácil. Nesse ponto, lembremos Jacques-Alain Miller, que, herdeiro dos textos de Lacan, propicia a orientação lacaniana.

 

 

BIBLIOGRAFIA

Cassin, Bárbara. Ensaios Sofísticos. São Paulo: Siciliano, 1990.

Freud, S. Projeto para uma Psicologia Cientifica, In: Pequena Coleção das obras de Freud, Imago Ed, Rio de Janeiro, 1975 – p. 110.

Heidegger, M. Sobre a essência da Verdade. In: Conferências e Escritos Filosóficos. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

Lacan, J. Televisão. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.

Lacan, J. L’insu que sait de l´une bévue s´aile á mourre. Seminário de 19 de abril de 1977 – Rumo a um significante novo – II – A Varidade do sintoma. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller, p. 1. https://campopsicanalitico.com.br/media/files/a-varidade-do-sintoma.pdf.

Miller, J-A. Teoria d´Alíngua. In: Matemas I.Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996.

Miller, J-A. El ultimíssimo Lacan. Buenos Aires: Paidós, 2014.

Miller, J-A./Laurent, Eric. O Outro que não existe e seus comitês de ética. Buenos Aires: Paidós, 2006.

Nietzsche, F. Sobre Verdade e Mentira no sentido extra-moral (1873). In: Obras Incompletas. São Paulo: Abril Cultural, 1978.


[1] Cassin, Bárbara. Ensaios Sofísticos. São Paulo: Siciliano, 1990 – p. 7.

[2] Questão já abordada por mim em um Seminário de 1999, que pretendo retomar.

[3] Heidegger, Martin. Sobre a essência da Verdade. In: Conferências e Escritos Filosóficos. São Paulo: Abril Cultural, 1979, p. 131.

[4] Lacan, Televisão. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003 – p. 508.

[5] Nietzsche, F. Sobre Verdade e Mentira no sentido extra-moral (1873). In: Obras incompletas. São Paulo: Abril Cultural, 1978, p. 47.

[6] Idem, Ibidem, p. 47.

[7] Diferencio nesse neste texto: “coisa” como os objetos que circundam os seres humanos e “objeto” como o falante colocado nesta posição, enquanto o outro é sujeito.

[8] Nietzsche, F. Op. Cit., p. 47.

[9] Nietzsche, F. Op. Cit., p.47.

[10] Freud, S. Projeto para uma Psicologia Cientifica, p. 110, in Pequena Coleção das obras de Freud, Imago Ed, R. de J., 1975.

[11] Nietzsche, F. Op. Cit., p.48.

[12] Idem, ibidem, p.48.

[13] Miller, J-A. Teoria d´Alíngua. In: Matemas I.Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996, p. 70.

[14] Nietzsche, F. Op. Cit., p.48.

[15] Idem, ibidem, p. 47.

[16] Não estamos fazendo a diferença, necessária, neste texto, entre real e “lalangue”.

[17] https://campopsicanalitico.com.br/media/files/a-varidade-do-sintoma.pdf , p. 1.

[18] Miller, J-A / Laurent, Eric. O Outro que não existe e seus comitês de ética. Buenos Aires: Paidós, 2006, p. 15.