Scroll to top
  • Tel.: (11) 3864.7023

HISTERIA RÍGIDA, A HISTERIA DO SÉCULO XXI

Trois Grâces by James Pradier, Louvre

 

Maria Cristina Merlin Felizola (CLIPP)

Questão: Se a histeria rígida não se sustenta no Nome do Pai, no que ela se sustentaria? No que se diferenciaria de uma psicose, ou mesmo de uma psicose ordinária?

Comecei minha pesquisa com o caso de Histeria Traumática apresentado no Seminário 3i. Lacan naquele momento insistia na importância dos fenômenos de linguagem na economia da psicose; trabalhava com o conceito de estrutura, significante e significado e a referência era o Outro da fala, onde o sujeito se reconhecia e se constituía. Um caso sem vestígios de elementos alucinatórios, mas que traz em primeiro plano o fantasma de gravidez e procriação.

Um homem de 33 anos, austero, de origem camponesa, sai de casa na adolescência para trabalhar na cidade, chega ao posto de condutor de bonde, após ter tido alguns trabalhos. Num acidente, tropeça e cai do bonde, sendo arrastado alguns metros. No hospital nada grave foi constatado, mesmo sendo muito bem radiografado. Após o acidente, sentia dores nas costelas e crises que causavam um mal-estar crescente a ponto de perder os sentidos. Para Lacan, os exames radiológicos desencadearam as crises decorrentes de uma fantasia de gravidez: “Será que sou alguém capaz de procriar?”

Isso o leva à questão da posição sexual, que se dá no nível do Outro, já que a integração à sexualidade está ligada ao reconhecimento simbólico. É a partir da lei, que a sexualidade é realizada no plano simbólico, pela via do Édipo. Nesse momento, o sujeito se questiona: sou um homem ou uma mulher? Isto funciona como uma chave, toda sua vida se reordena nesta perspectiva. Ao cair do bonde, ele dá luz a si mesmo. Foram destacados os elementos regressivos, que se inscreveram no sintoma como traços de caráter anal, tendência homossexual e um trauma vivido na infância, quando presenciou um parto a termo onde a criança saiu despedaçada.

Mas um outro caminho é apresentado a partir do caso Doraii: a função do eu e do plano imaginário. Dora se identifica com o senhor K e deseja a senhora K. Para Dora, a questão era: o que é ser uma mulher? O que é um órgão feminino?

Não há simbolização do sexo da mulher como tal, não é da mesma ordem do sexo masculino, no feminino há uma prevalência imaginária.

A realização da posição sexual se dá pela travessia de uma relação fundamentalmente simbolizada – o Édipo, que aliena o sujeito e o faz desejar o objeto de um outroiii. Ao contrário, na ordem do imaginário isso se dá pela identificação e se realiza como objeto de concorrência.

O que quer dizer rigidez? A cadeia borromeana é um nó, é uma cadeia que desliza até o nó. Uma cadeia de toda forma é rígida, mesmo a borromeana, com os três registros: R, S, I.

O que testemunha o real é uma falácia, é uma aparência. E o real é verdadeiro? Só é verdadeiro o que tem sentido, o real não tem sentido algum.

No discurso da histeria, no piso superior, temos um sujeito barrado que se dirige ao mestre; no caso da histeria rígida, temos um curto-circuito, não tem chamado ao deciframento ou à interpretação, para produzir um saber que possa revelar o sentido reprimido do seu sofrimento. Nesse caso, podemos ainda usar o nome de histeria?

Lacan inicia um percurso para levar a histeria além do discurso, um percurso do discurso ao nó. No discurso temos a primazia do simbólico, no nó temos a equivalência dos três registros. A estrutura já não pode ser deduzida a partir da primazia do simbólico e seus efeitos. O Outro deixa de ser a chave para ler o sintoma.

O inconsciente tem um sentido? O estruturado como linguagem simiv.

Lacan inventou o inconsciente que se escreve como real, sob a forma de nó borromeano, não um nó, mas uma cadeia de três elementos e um deles é o real. Os três registros formam uma metáfora da cadeia que não é escrita facilmente. Há um forçamento de escrita e o real tem valor de trauma.

Rememoração é diferente de reminiscênciav – a rememoração se dá a partir do termo impressão; Freud supôs que algumas coisas se imprimiam no sistema nervoso. A rememoração consiste em fazer estas cadeias entrarem em alguma coisa que já estava lá e que se nomeia como saber. Para Freud, um saber supõe um saber falado, que pode ser interpretado

O sujeito é representado verdadeiramente, conforme a realidade, que não tem nada a ver com o real. A forma do inconsciente como Freud concebeu (uma energética – constante que manteria Simbólico e Imaginário produzindo sentido), não tem nada a ver com aquela da qual se serve Lacan, onde o real é o elemento que mantém o simbólico e o Imaginário juntos; o real faz o nó.

A reminiscência “É a suposição de que já há alguma coisa ali, de uma ideia que já está ali e que não é inventada, que se sustenta em um sujeito suposto saber e que quando aparece, surge em seu esplendor solitário como tendo sido aprendida ou adquirida em outra existência ou em um status eterno do sujeito”. Mas, não há reminiscênciavi da cadeia borromeana.

É um real distinto do real órgão carnal (simbólico e imaginário enodados) – é sem sentido. O verdadeiro furo é que não existe Outro do Outro e consequentemente não há existência para o real, que é distinto da realidade. O real tem a ver com a escrita/escritura.

Temos um $  S1. Neste caso há curto-circuito, não tem chamado ao deciframento, à interpretação, para produzir um saber que possa revelar o sentido reprimido do seu sofrimento.

Lacan faz um percurso para levar a histeria além do discurso.vii Vai do discurso ao nó; no discurso temos a primazia do simbólico, o nó é da ordem do registro, da equivalência. A estrutura já não pode ser deduzida da primazia do simbólico e seus efeitos.viii O Outro deixa de ser a chave para ler sintoma.

É separado do sentido, que o sintoma aparece no Seminário 23 com o Caso Dora de Helene Cixous. Dora se apresenta de uma maneira reduzida, a um estado que poderia chamar material – uma espécie de histeria rígida. “Uma histeria sem sentido, sem interpretante, sem par”. ix

Na obra, Dora dá conta de seus sintomas, fala do encontro traumático (a sedução do Sr. K) e da sua fascinação pela Sra K. Ela não precisa de Freud, não busca uma interpretação, nem um sentido que poderia vir do Outro. Não se trata de uma reação terapêutica negativa, para ela não há possibilidade de elaborar um saber a partir do Outro. A Dora da peça fala com o Outro (Freud), mas não busca uma interpretação vinda do S1- (Freud). Ela, ao falar do trauma sexual, inventa sua própria elaboração, num trabalho solo, sem interpretante e “sem o parceiro que constitui o nome do pai”.x Rechaça as interpretações freudianas, assim como a do pai e da referência fálica. Dora é refratária à interpretação e se esforça para produzir uma elaboração própria.

É rígida porque prescinde, para sua sustentação, de um círculo suplementar; sem o nome do pai, sustenta-se só. Na época do corpo falante, não temos nenhum sentido a decifrar e nem tentar buscar uma interpretação pelo sentido.

*Cartel: Histeria Rígida

i Lacan, Jacques. As Psicoses – Seminário 3. A questão histérica. p.203. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1985
ii Ibid. p.200.
iii Ibid. p.203
iv Lacan, Jacques. O Sinthoma – Seminário 23. Do inconsciente ao real. P 125. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2005
v  Ibid., p.127.
vi Ibid., p.
vii Rubinetti, Cecilia: Las histerias hoy. p.19 In e-mariposa: Neurosis de yaer e de hoy. Nº11, setembre 2018.
viii Ibid. p.19.
ix Ibid. p.19.
x Ibid. p.19.