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O SINTOMA E O SINTHOME DO SER FALANTE

 

                               Carol Bove’s

 

KÁTIA RIBEIRO NADEAU (CLIPP – Seminário de Leitura)

O sintoma para a psicanálise é a resposta do ser falante ao traumático do Real. Esta é a premissa que destaco neste percurso das discussões e elaborações do Seminário de Leitura da CLIPP, no segundo semestre de 2022.

Os sintomas se produzem no inconsciente, são interpretáveis e percorrem, em uma análise, o trajeto do sentido ao gozo. O real do sintoma passa pela fantasia, e esta tem por função velar o Real; por essa mesma razão, a retificação, no nível pulsional, passa pela travessia da fantasia. O sintoma se situa entre o gozo e a defesa, no mais íntimo do campo sexual e libidinal do ser, já que a pulsão não é amiga dos semblantes em sua relação com o Real.

A satisfação pulsional é Real e repetitiva no que há de Real na fantasia; o sintoma é um arranjo entre os registros Real, Simbólico e Imaginário e, ao mesmo tempo, um modo de gozo tecido na história e no corpo de cada UM.

Se a Verdade está do lado significante, uma dedução lógica a torna mentirosa, o que se demonstra quando o encontro do corpo com o significante indizível não pode ser a verdade, já que a verdade só se pode dizer. Como bem disse Laurent Dupont, em sua conferência nas jornadas da EBP-SP 2022, “a verdade mentirosa é distinta do desrespeito à verdade”.

A angústia Real se apresenta como sinal do desamparo frente ao trauma e frente à exigência pulsional que, ao exigir satisfação e defesa ao mesmo tempo, produz um sintoma ou uma inibição.

Lacan localiza, no âmbito dos registros, o imaginário do lado da inibição, o simbólico do lado do sintoma e o real do lado da angústia.

Uma análise funciona como uma experiência que leva o analisante para aquilo que do gozo não faz sentido e que resta para além da queda do objeto a. Miller em seu curso O ser e o Um, localiza o Um para além do Ser. O Ser é criado pela potência da linguagem em fazer existir o que não existe. O ser é um ser de linguagem.

Se o sintoma faz sentido, o sinthome goza fora do sentido. É uma constatação da repetição e, como um acontecimento de corpo, repete o gozo no corpo. Para Lacan, o sinthome é a resposta que cada ser falante dá ao furo da estrutura significante: “não há relação sexual”.

Se o sintoma comporta um excesso de gozo em sua face de sofrimento, o sinthome comporta o gozo sem excesso em sua face de satisfação. O que resta do sintoma no sinthome são os restos sintomáticos. Se o sintoma é pura e simplesmente Um ser de linguagem, o paradoxo consiste no que resta, no resto que resta e insiste para além da interpretação e fora do sentido.

O sintoma enquanto sinthome é o Real de um gozo revelado, distinto da linguagem. O sintoma se lê, se interpreta, enquanto o sinthome não se lê, por estar separado da cadeia significante, está do lado do Outro gozo, não todo fálico.

“O gozo não pode ser escrito” (Lacan, Seminário 18, capítulo 5, O escrito e a fala). Por não ter relação com a lei simbólica, esse OUTRO gozo (feminino) está separado da linguagem, aquilo que falta enquanto significante ao Outro da linguagem.

É só na relação da escrita com a angústia, no esforço de amansar as palavras esquivas ou indomáveis, que devastam o sentido, lá onde o Isso faz perder ou pesar a voz por fora do sentido, que se escreve por pura pressão da angústia. O ato de escrever pode tecer um texto e atravessar os semblantes do que há de inumano no falasser. O impossível de dizer tem a escrita como artifício, por onde a palavra faz o real passar.

Bibliografia

Freud, S. (1937) “Análise terminável e interminável”. Obras completas- Imago – vol. XIX

Freud, S. “Inibição, sintoma e angústia”. Obras completas

Lacan. J . Seminário 18 “De um discurso que não fosse semblante”, cap. 5.

Miller, J.-A. “Ler um sintoma”. Opção Lacaniana 70, 2015.

Miller, J.-A “Del sintoma al fantasma y retorno”, cap. XXI, El estatuto del sintoma.

Miller, J.A. “O ser e o Um”. Opção Lacaniana 70, 2015.