
Editorial Revista Hades – Vol. 6 – N. 2 – maio de 2026 – www.clipp.org.br
FEMININO: OBJETO DE ESTUDO E AUTORIA TEÓRICA
Maria Bernadette Soares de Sant´Ana Pitteri
Observa-se que a história da psicanálise foi contada como um campo dominado por homens, mas a Revista HADES busca arrancar do esquecimento, da invisibilidade, algumas das mulheres que praticaram e teorizaram, intelectuais que não apenas aplicaram, mas contestaram e até expandiram a teoria freudiana, trazendo contribuições que, para além da figura de Freud, facilitaram repensar a visão do feminino. Esta edição não se pretende um ato de reparação histórica identitária, mas busca sim, atender a uma exigência ética e clínica. Ignorar a genealogia feminina na psicanálise arrisca repetir, em suas instituições, o ponto cego do que Freud chamou de “continente negro” da feminilidade.
RUTH MACK BRUNSWICK: A PREFERIDA DE FREUD
Débora Garcia (CLIPP)
Uma edição da revista HADES dedicada às mulheres pioneiras da psicanálise é especialmente relevante no contexto atual, na medida em que não apenas resgata a memória dos primórdios e do percurso da própria psicanálise, mas também restitui a o devido lugar às mulheres que participaram ativamente de sua construção desde os seus fundamentos até a atualidade
KAREN HORNEY E JOAN RIVIÈRE: CONTRIBUIÇÕES À PSICANÁLISE DO SÉCULO XXI
Olenice Amorim Gonçalves (CLIPP)
Desde o início com Freud e suas histéricas foi assim: o que acontece no corpo que é sem representação? Nas teorias sexuais infantis, Freud apontou para algo que Lacan veio a nomear em seu ensino como falta (ausência/presença de algo). Em Algumas consequências psíquicas da distinção anatômica entre os sexos, 17 anos depois, Freud empenha a inveja do pênis, que após passar pelo complexo de castração nas meninas, culminaria como ciúme.
CONTRIBUIÇÕES DE ANNA FREUD PARA A PSICANÁLISE
Fernanda de França Lorenção (CLIPP)
Nascida em 1895, em Viena, e a caçula de seis filhos de Martha Bernays e Sigmund Freud, Anna Freud foi a única filha a seguir os passos do pai ao se interessar pela psicanálise desde muito jovem. Sua constituição pessoal e profissional passou por caminhos singulares, possibilitando uma trajetória que resultou em uma obra que, até hoje, ocupa um lugar de destaque na história da psicanálise.
MELANIE KLEIN: “A TRIPEIRA INSPIRADA”
Beatriz Maia S. de Moura (CLIPP)
Melanie Klein nasceu em Viena, em 1882, em uma família judaica, tendo sua infância marcada por perdas e dificuldades financeiras. Ao longo da vida, enfrentou episódios depressivos que a levaram ao tratamento psicanalítico. Após iniciar análise com Ferenczi, por volta de 1914, ingressa na psicanálise, apresentando seu primeiro artigo em 1919 e tornando-se membro da Sociedade Psicanalítica de Budapeste. Em 1921, muda-se para Berlim, e passa a se analisar com Karl Abraham. A partir de 1925, a convite de Ernest Jones, dá uma série de conferências em Londres, onde suas ideias encontram maior receptividade, estabelecendo-se definitivamente na cidade poucos anos depois.
UMA PSICANALISTA PRESENTE, HELENE DEUTSCH
Juliana Gayoso Franco de Toledo (Clipp)
A psicanálise tem Freud como seu fundador, criador deste método revolucionário de investigação e tratamento clínico, que permanece e resiste apesar dos acontecimentos e mutações próprias à história da humanidade, e Lacan que por sua vez, não deixou o pai morrer, e retornou à ele fazendo nova revolução a partir do que seria mais autêntico e subversivo da obra freudiana. Dois psicanalistas homens absolutamente interessados na teoria sexual, que tomaram a mulher inicialmente como enigma para ao final torná-la inexistente.
RESSONÂNCIAS DAS CONTRIBUIÇÕES DE LOU SALOMÉ NA PSICANÁLISE CONTEMPORÂNEA
Noemi Araujo (CLIPP)
Conhecida pela sua beleza, elegância, vivacidade, feminilidade, mas principalmente pela sua inteligência e capacidade intelectual, Lou Salomé (1861-1937) marcou a história da filosofia, da psicanálise e a de Freud. Abandonou a literatura para dedicar-se à formação psicanalítica, a partir do seu encontro com Freud no congresso da IPA (Weimar, 1991), intermediado por Pol Bjerre. A isca foi jogada quando Bjerre pediu a Freud para iniciá-la na Psicanálise. Capturado pelos seus encantos, Freud cedeu inserindo-a nas reuniões das quartas-feiras, como membro da Wiener Psychoanalytische Vereinigung (WPV). Instalada em Viena, aos 50 anos iniciou sua análise com Freud, seguiu simultaneamente as reuniões do círculo psicanalítico de Adler e aproximou-se de Anna Freud.
ELLA SHARPE, O ESPÍRITO DA LETRA
João Paulo Desconci (CLIPP)
Reconhecida por Lacan por sua insistência nos fundamentos retóricos e fonéticos da linguagem, devido à sua formação inicial em literatura inglesa, Ella Freeman Sharpe (1875-1947) destaca-se pela aplicação da teoria freudiana à literatura, e por situar com precisão o caráter significante do falo. Seu interesse por Shakespeare se manteve até o fim e constitui um traço marcante em sua obra. Seu estudo sobre Hamlet[1], por exemplo, marca o seu retorno à literatura inglesa, depois do encontro com a psicanálise. Lacan não desconhecia esse ensaio e chegou a afirmar que Sharpe disse coisas sobre o Hamlet que não são sem interesse!

A Revista Hades é uma publicação mensal editada
pela Clínica de Atendimento e Pesquisas em Psicanálise (Clipp).
ISSN: 3085-9492
