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feito por nós #05

A SOLIDÃO E AS SOLUÇÕES DO FALASSER

Eliane Costa Dias (EBP/AMP)
“Quem fala só tem a ver com a solidão” (Lacan, 1972-73)[1].
“A solidão é uma ilusão” (Brousse, 2019)[2].

Como conciliar essas duas afirmações, aparentemente contraditórias? Como falar em solidão do sujeito quando não há sujeito sem o Outro?

No trabalho clínico e epistêmico preparatório às IX Jornadas da EBP-SP nos deparamos com diversos sintagmas: solidão-queixa que se ouve na clínica, solidão-sintoma nas diferentes estruturas clínicas, solidão-posição no laço social, solidão-efeito da época, solidão-ato, solidão-desejo do analista, solidão-Escola. Como afirma Miquel Bassols, “há diversas solidões, diversas maneiras de estar só”[3].

Penso que a via de articulação entre essas diferentes perspectivas passa por deslocarmos o eixo de abordagem do par sujeito-Outro, pedra angular do primeiro ensino de Lacan, para o par falasser-gozo, introduzido em seu último ensino.

O último Lacan nos direciona a uma nova teoria da constituição subjetiva, não mais do sujeito, mas do falasser. O encontro do vivo com a linguagem é causa de um acontecimento de gozo, de uma afetação que marca a carne. A intrusão do significante faz furo e marca uma inscrição primeira – Bejahung -, mas impõe, ao mesmo tempo, uma expulsão primordial do que é insuportável – Ausstosung. O que é expulso do Eu, esse fora do corpo primordial, vai constituir o real enquanto domínio do que subsiste fora da simbolização, do que ex-siste e insiste. Desta forma, todo falasser se constitui a partir desse troumatisme e se confronta com o desafio de encontrar solução para o vazio que lhe é constituinte e para essa dimensão opaca e inominável do ser – o gozo.

Como cada falasser se vira com essa segregação estrutural?

O trabalho realizado durante o IX ENAPOL[4] mostrou que as paixões e os afetos que tomam o ser falante são efeitos, respostas a esse furo estrutural e estruturante que Miller nos propõe como foraclusão generalizada[5]. Dessa perspectiva, verificamos que a solidão é um afeto inerente ao falasser e podemos pensá-la a partir dos três registros – RSI.

No campo do Simbólico, evidencia-se que só pode haver experiência de solidão na relação com o Outro da palavra e da linguagem. A solidão como afeto resultante da experiência de separação e de castração no processo de constituição subjetiva, da experiência de presença/ausência do objeto. Na relação com o Outro, a solidão configura uma modalidade de resposta frente ao enigma do desejo do Outro e por essa via, podemos pensar em uma clínica diferencial da solidão[6]:

  • No campo da neurose, encontramos a solidão como afeto decorrente da falta-a-ser, a solidão alojada na fantasia: parceria imaginária com o falo, na fantasia obsessiva; identificação ao objeto suposto completar o desejo do Outro, na fantasia histérica. A experiência de solidão do neurótico diz da expectativa de encontrar no Outro uma completude que possa recobrir sua falta-a-ser.
  • No campo da psicose, por outro lado, a solidão apontaria à posição do sujeito em sua inexorável dor de existir, atravessado pela insistência silenciosa da pulsão.

No plano do Imaginário, a solidão remete à ausência/presença do outro, à suposição de que poderia haver uma presença ali onde algo está ausente. Solidão como afeto que emerge e move as relações de identificação e de rivalidade próprias do imaginário e nos permite pensar a solidão na subjetividade contemporânea. Em tempos de declínio do simbólico, de elevação do objeto ao zênite social[7], na impossibilidade de identificação pelo amor ao Pai, prevalecem as identificações pelo modo de gozo. As comunidades de gozo oferecem referências e alguma nomeação (somos gays, anoréxicos, evangélicos…), mas não asseguram solução para o desamparo estrutural, posto que não se encontra lugar para o singular do gozo em grupos homogeneizantes e que resultam em movimentos segregativos. Como alerta Philippe La Sagna: “O eu isolado contemporâneo, que Lacan denunciou há mais de cinquenta anos como redução do homem ao indivíduo, hoje se constitui um eu de contorno fluido e plasticidade líquida, tão móvel e frágil quanto o mais de gozar que ele reflete”[8].

A insuficiência do Simbólico e do Imaginário para dar conta da solidão nos abre caminho para sua vertente real.

Na passagem do Seminário 20 de que extraímos a citação acima, Lacan nos diz que o “Eu, não é um ser, é um suposto a quem fala”[9]. Afirma que a solidão diz respeito ao que não se pode escrever – o real da não relação sexual – e a define como “ruptura do saber”. Ou seja, os momentos de ruptura que levam à solidão são momentos em que se rompe o saber do mestre e com ele, a ilusão de que esse saber poderia assegurar um sentido ao inominável do ser. A solidão implica, portanto, o que é impossível de nomear e de partilhar.

Na dimensão do real, a solidão remete ao Um do gozo, na medida que é da essência do gozo seu caráter autístico e solitário. Mesmo no encontro com o Outro do sexo, o lugar do gozo é o corpo próprio, sempre solitário, por qualquer que seja o meio de acesso. Campo do gozo como Um que não faz dois e que se impõe como coordenada central do último ensino de Lacan.

Não há relação sexual. Há gozo. Há Um. Há solidão[10].

Em sua vertente real, portanto, a solidão é uma condição subjetiva inexorável e está atrelada à angústia, outro afeto igualmente estrutural e estruturante.

Qual o fazer da psicanálise com a solidão?

Frente às paixões do ser e às intempéries da época, cabe à psicanálise persistir numa política do amor ao sintoma. O envelope formal do sintoma nos diz da armadura de significantes e de vestimentas imaginárias em que o sujeito se encontra enredado, mas seu núcleo opaco aponta ao pulsional, ao real do gozo que não cessa de percorrer a carne e de não se escrever. Como bem descreve Philippe La Sagna: “O sintoma é o traço escrito de nossa solidão, de nosso não saber fazer com o que importa: a mulher, a verdade, o gozo e o laço social que tempera os impasses do gozo”[11].

Cabe ao psicanalista sustentar uma clínica da singularidade, que possa levar um sujeito a uma relação com o sintoma que lhe permita saber-fazer-aí como o desejo e com o gozo, que lhe permita suportar uma experiência de solidão capaz de fazer laço[12].

 

[1] Lacan, J. Seminário 20: mais, ainda (1972-73). Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 128.
[2] Brousse, M. H. Entrevista “Solidão”. Disponível no Boletim Traços #01: https://ebp.org.br/sp/jornadas/ix-jornadas/boletim-tracos-ix-jornadas/boletim-tracos-01/
[3] Bassols, M. Soledades y estructuras clínicas. Freudiana, nº 12, 1994.
[4] IX Encontro Americano de Psicanálise de Orientação Lacaniana: Ódio, Cólera, Indignação. Realizado em São Paulo, de 13 a 15 de setembro de 2019.
[5] Miller, J-A. Foraclusão generalizada. In: Batista, M. C.; Laia, S. (org.) Todo mundo delira. Belo Horizonte: Scriptum, 2010.
[6] Bassols, M. Ibid.
[7] Laurent, É. A sociedade do sintoma. A psicanálise, hoje. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2007, p. 163.
[8] La Sagna, P. Do isolamento à solidão, pela via da ironia. Curinga, nº 44, 2017, p. 74.
[9] Lacan, J. Ibid., p. 128.
[10] Darrigo, L. Uns traços – Solidão, a impossibilidade de fazer dois. Disponível no Boletim Traços #02: https://ebp.org.br/sp/uns-tracos-solidao-a-impossibilidade-de-fazer-dois/
[11] La Sagna, P. Ibid., p. 77.
*Photo by Martin Brechtl on Unsplash

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feito por nós – Numa articulação sobre os diferentes modos de solidão Eliane propõe o  deslocamento do eixo de abordagem do par sujeito-Outro para o par falasser-gozo. Deslocamento que segundo ela remete a uma nova teoria da constituição subjetiva que, no último Lacan, passa a focalizar o falasser e não o sujeito. Explica que, “todo falasser (…) se confronta com o desafio de encontrar solução para o vazio que lhe é constituinte e para a dimensão opaca e inominável do ser – o gozo”. Ao indicar a perspectiva da foraclusão generalizada proposta por Miller, ela salienta que “a solidão é um afeto inerente ao falasser” sendo possível, portanto, “pensá-la a partir dos três registros – RSI”. Destaca que o Simbólico e o Imaginário não são suficientes para dar conta da solidão o que abriria caminho para sua vertente real onde, “a solidão remete ao Um do gozo, (…) é uma condição subjetiva inexorável e está atrelada à angústia, outro afeto igualmente estrutural e estruturante”.

Leny, uma vez que na vertente real a solidão remete ao Um do gozo, está atrelada à angústia e é condição subjetiva inexorável, como pôr em marcha a experiencia analítica considerando o par falasser-gozo?

Pergunta elaborada por Vera Dias

Leny Mrech – Discorrer a respeito da solidão implica ter presente um dos sentimentos mais constantes no ser humano. Em algum momento na vida o sujeito irá se dar conta de que está só. Um só que pode ser estar com coisas, mas não necessariamente com o Outro. Essa é uma distinção importante para a Psicanálise.

Ao explorar o tema da solidão Eliane Costa Dias vai desdobrando esse “estar só” em várias camadas. Começando pelos diferentes tipos de queixas, tais como: a própria solidão-queixa até a solidão-sintoma. Não deixando de lado como aparece a solidão nas estruturas clínicas.

Com isso, ela faz uma passagem importante ao recortar melhor o seu objeto e se direcionar decididamente para a clínica, encontrando em Miguel Bassols uma forma de delinear melhor o escopo do seu trabalho ao afirmar: há diversas solidões, diversas maneiras de estar só”.

Como explorar essas diversas solidões? A opção da autora é sair de uma solidão universal e atemporal, para solidões no plural e singular a cada sujeito. Propiciando que ela faça uma trajetória do Lacan do primeiro ensino pautado no sujeito do inconsciente para o chamado último Lacan – aquele do falasser e do gozo.

Como se apresentam as solidões nessas duas vertentes? No primeiro ensino estamos frente ao par sujeito-Outro. Ela explora a vertente simbólica direcionada ao campo da palavra e da linguagem. A solidão seria uma decorrência da operação de separação e castração no processo de constituição subjetiva. Ali existiria a experiência e ausência do objeto. O que leva a autora a propor que a solidão configura uma modalidade de resposta frente ao enigma do desejo do Outro e por essa via, podemos pensar em uma clínica diferencial da solidão.

É através dela que propõe uma distinção entre as neuroses histérica e obsessiva e a psicose. No primeiro caso, é onde se constata que a solidão revela a não complementaridade do Outro que não recobriria a falta-a-ser do sujeito.

No campo da psicose, no primeiro ensino, destaca que a solidão apontaria à posição do sujeito em sua inexorável dor de existir, atravessado pela insistência silenciosa da pulsão.

Com relação ao imaginário a autora destaca que a solidão remeteria a ausência-presença do outro, à suposição de haver uma presença de algo ausente. A solidão seria direcionada para os processos de identificação e rivalidades próprias do imaginário. Destaca que essa vertente caracteriza os processos atuais da sociedade. Cita Philippe La Sagna: O eu isolado contemporâneo, que Lacan denunciou há mais de cinquenta anos como redução do homem ao indivíduo, hoje se constitui um eu de contorno fluído e plasticidade líquida, tão móvel e frágil quanto o mais de gozar que ele reflete.

Para Eliane Costa Dias, assim como para Lacan, é a insuficiência do imaginário e do simbólico que acabou abrindo caminho para o real. E é neste momento que vincula também a passagem do Lacan do primeiro ensino para o Lacan do real, o Lacan do falasser.

Ela se dará no Seminário 20. Ali Lacan delineia o real da não relação sexual, o definindo como uma ruptura de saber. E é ela que leva à solidão. São momentos em que se rompe o saber do mestre e com ele, a ilusão de que esse saber poderia assegurar um sentido ao inominável do ser. A solidão implica, portanto, o que é impossível de nomear e de partilhar.

A solidão remete ao Um do gozo, ao Um sozinho.  Pois o gozo tem caráter autístico e solitário. Mesmo no lugar do encontro com o Outro sexo, esse é sempre falhado, pois o lugar do gozo é com o corpo próprio, que é sempre solitário. O gozo do Um não faz dois. Acompanhando Luciana Darrigo a autora diz: não há relação sexual. Há gozo. Há um. Há solidão.

O que temos, então, é a solidão sempre presente, atrelada a angústia. Não mais uma solidão esporádica. Fica a pergunta para a autora: o que fazer da Psicanálise com a solidão? A resposta se encontra no amor ao sintoma. O seu núcleo opaco aponta ao real do gozo que não cessa de percorrer a carne e de não se inscrever.

A autora cita Philippe Lasagna: o sintoma é o traço escrito de nossa solidão, de nosso não saber fazer com o que importa: a mulher, a verdade, o gozo e o laço social que tempera os impasses do gozo.

Ao psicanalista, cabe sustentar uma clínica da singularidade que possa levar o sujeito em uma relação com o seu sintoma que lhe permita saber-fazer-aí com o desejo e com o gozo que lhe permita suportar uma experiência de solidão capaz de fazer laço.

Pergunta: Uma vez que na vertente real a solidão remete ao Um do gozo, está atrelada à angústia e é condição subjetiva inexorável, como pôr em marcha a experiência analítica considerando o par falasser-gozo?

A solidão, para Lacan, é um sentimento, isto é, um sentir-mente. Revelando que há um aspecto no sentimento que é uma mentira. O que se evidencia ainda mais no chamado último ensino de Lacan. Os sentimentos não tem uma única leitura. E, além disso, Lacan não se deixa enganar por eles ao afirmar que todo mundo é feliz. Ou seja, perante as modalidades de gozo goza-se com a solidão. A solidão é mais uma modalidade de gozo.

Por isso, um psicanalista não se deixa levar pela aparente solidão de um falasser. Ele sabe que a solidão é um sentimento enganador. Pois, embora o sujeito esteja reclamando de sua solidão, paralelamente, ele goza com ela. Então, é importante que o psicanalista se direcione para as modalidades de gozo e não para os sentimentos.

O que interessa é que frente a solidão o sujeito se confronte com o insuportável que o real lhe apresenta. Que o sujeito se confronte com o objeto a, revelando o verdadeiro par com o qual ele interage: o chamado parceiro-sintoma. E que ele possa fazer laço e não ficar no Um-Sozinho onde a solidão impera.